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"Creio que até mesmo hoje em dia, imediatamente antes do início de uma palestra ou de ensinamentos ao público, sempre sinto um pouco de ansiedade". Dalai Lama
Há vinte anos, na década de 80, podemos dizer que o principal foco de preocupação e dificuldade que vivia nossa sociedade estava relacionado com a sexualidade e com os relacionamentos em geral. Hoje, em meio ao movimento contemporâneo, nos consultórios psicoterápicos e psiquiátricos, nos deparamos com os transtornos de ansiedade em geral, como os principais agentes de preocupação de nossa sociedade.
Posso arriscar a dizer que a ansiedade é o grande mal, o grande inimigo a ser enfrentado neste século XXI, e que, se não for combatido adequada e rapidamente, poderá interferir, como já interfere em alguns casos, nos níveis de felicidade e realização de uma considerável camada da população.
Todo processo de ansiedade tem como pano de fundo o medo. Aliás, me parece que nossa sociedade é uma "fazedora" de seres humanos assustados e desamparados, sem esperança e fé no amor e no calor que tanto desejamos e precisamos. Mas não nos esqueçamos de que somos nós mesmos quem construímos essa sociedade, com nossos desejos de poder e ganância, nosso orgulho e desrespeito pelo próximo e pela própria Mãe natureza, nossa nutridora maior. Se fomos nós quem construímos, cabe somente a nós destruir essa pirâmide de infelicidade. Essa é uma tarefa para cada um de nós: desconstruir individualmente, por meio do conhecimento, da percepção e da auto consciência. Afinal, onde está o amor e o calor humano a não ser dentro de nós mesmos? Quanto mais converso, quanto mais me relaciono com as pessoas, mais forte é a minha convicção de que todos estamos congelados, nos amortecendo mais a cada dia, na tentativa de evitar o contato real com nossa necessidade de amar e ser amado. Percebo que todos se empenham em uma luta vazia, que é a sobrevivência em um mundo sem sentimentos verdadeiros de alegria e de calor humano, um mundo emocionalmente vazio, no qual a segurança e a estabilidade emocional não encontram espaços para se manifestar. Com essa atitude, estamos construindo espaços cada vez maiores para a instalação da solidão, do desespero e do desamparo.
Nosso cérebro é equipado com um sistema dinâmico capaz de suportar níveis elevados de medo e estresse, mas acontece que, vivemos constantemente uma desconexão, ou seja, uma falta absoluta de contato que ultrapassa nossa capacidade de assimilação.
Vamos tomar como exemplo a "epidemia" de transtorno ou síndrome do pânico, que é um mal que acometeu nossa sociedade nos últimos anos. A síndrome do pânico tem como característica ataques de pânico, que são períodos acompanhados de alguns sintomas como sudorese excessiva, principalmente nas mãos, taquicardia ou alteração dos batimentos cardíacos, tontura e falta de equilíbrio, falta de ar, tremor etc., que são, na verdade os sintomas disparadores das crises. No início, esses sintomas desencadeiam um susto, e o medo e a ansiedade vão crescendo até chegar ao nível do desespero e do pânico. A pessoa em crise sente-se fora da realidade e muitas vezes acha que vai morrer. É um estado de extremo sofrimento emocional acompanhado do pavor do colapso, loucura ou morte. Além disso, quando se tem a primeira crise, a ansiedade de repetição absorve a vida dessa pessoa e ela vive o tempo todo no pânico do pânico. Esse processo se chama ansiedade antecipatória e esse estado acaba por aprisionar a pessoa, pois ela começa a evitar algumas situações e ambientes que são considerados ameaçadores. Assim se desenvolvem as fobias, próprias desse mal, tais como, medo de elevador, de dirigir, de estar em ambientes fechados ou abertos demais...e, a partir das primeiras crises, a pessoa começa a associar essas situações com as próprias crises. A grande maioria das pessoas que sofrem de síndrome do pânico, são pessoas que não conseguem ou não conseguiram em algum momento de suas vidas, construir uma realidade interna de segurança e estabilidade emocional. Essa situação interna leva a sentimentos como o desamparo, a desconexão, a solidão e finalmente ao desespero, que é uma situação de sofrimento intenso de desproteção. Esses sentimentos são desencadeados principalmente pelas dificuldades de vinculação que nos deparamos em nossas vidas cotidianamente, frutos da falta de confiança e de conexão sobre a qual nossa sociedade é construída. As pessoas que sofrem de pânico devem se submeter a tratamentos específicos para o combate desse mal. Muitas vezes há a necessidade de medicação unida a psicoterapia. Mas esse tratamento deve acima de tudo auxiliar a pessoa a aprender a gerenciar as crises e os sintomas na tentativa de minimizar o desespero e a intensidade que ela desencadeia, além de facilitar o contato com os processos psicológicos e afetivos que atuam inconscientemente. É preciso, por meio do tratamento, buscar o restabelecimento ou desenvolvimento da capacidade de criar e sustentar conexões e vínculos significativos que protejam do desamparo e da ansiedade, e também construir uma melhor relação com as sensações do próprio corpo. A intervenção cognitiva, comportamental, além da corporal são técnicas especialmente eficazes no domínio da ansiedade e na prevenção das crises. E através da auto-consciência e da auto-percepção global, ou seja, do desenvolvimento de uma saúde corporal, psíquica/emocional e mental, além da espiritual de cada um que será possível caminhar em direção à formação de uma sociedade mais justa, mais amorosa e mais cooperativa, no intuito de criar ou gerar seres humanos mais afetivos e felizes, e consequentemente adentrar em uma era de maior estabilidade e acolhimento.
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