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Provações
O papel de vítimas nos leva à infelicidade
 
Eunice Ferrari
 
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"Fortalece a tua força de vontade para que não sejas controlado pelas circunstâncias, mas sim capaz de controlá-las "
- Paramahansa Yogananda -

Gostaria de continuar falando um pouco com vocês sobre a necessidade que temos de aceitar a dor e o sofrimento como parte integrante da vida. É natural e óbvio que todos nós desejamos sempre, fazer o possível e o impossível para não sentir dor, afinal não somos masoquistas, e ninguém em perfeita saúde gosta de sofrer.

Porém, enquanto não aceitarmos a dura realidade, que a dor é parte inerente à vida, não conseguiremos vivê-la em sua plenitude. Quando sentimos dor, são gerados dentro de nós profundos sentimentos de ansiedade, oriundos de nosso instinto de sobrevivência e, por que não, de nossa falta de fé.

Essa é uma reação natural em todos nós, humanos. Mas, enquanto insistimos em desviar nossa atenção da crise que está se instalando, não conseguiremos sair da mesma.

O conselho que sempre dou a todos os que procuram a minha ajuda é o de viver a dor, se for preciso profundamente, sem fugir dela. Aconselho a entrar em contato, mergulhar na crise que a dor e a perda provocam.

Mas como já sabemos, existe um tempo para tudo. Lembram do Eclesiastes? (Tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para chorar e tempo para rir... a vida é uma roda viva, que gira incessantemente, sem descanso. )

Se não tivermos essa verdade bem clara dentro de nós, não conseguiremos entender, dar um significado e um sentido para tudo o que enfrentamos. Como disse, há um tempo para tudo e, se esses sentimentos que a crise desencadeia não forem controlados, se não colocarmos um limite definido para acabar, ou diminuirmos a aflição que sentimos, entraremos em uma freqüência vibratória perigosa, e permaneceremos indefinidamente em estado de crise e lamentação.

Isso pode nos fazer muito mal, pois nos tornamos egocentrados, ou seja, o centro de nossa vida passa a ser o próprio ¿EU¿. O resultado dessa perpetuação da dor inevitavelmente é um estado de depressão.

Quando limitamos nosso sofrimento, quando nos determinamos a não colocar nossa energia focada na dor, quando nos propomos a olhar para fora de nós, para o sofrimento do outro, passamos a nos sentir, de alguma forma, acompanhados, mesmo que através da dor, e assim saímos do estado de depressão.

Como venho insistindo em algumas de minhas matérias, não podemos, nem devemos em hipótese alguma negar que uma das características da vida é o sofrimento. O que acontece então, conosco? Por que nos é tão difícil aceitar e compreender as situações limite que todos nós vivemos diariamente?

Existe um estudo que diz que à medida que nossa sociedade ocidental consegue cada vez mais ter acesso ao conforto e melhorar as condições de vida, mais dificuldade essa mesma sociedade sente em ultrapassar os limites provocados pela dor e lidar com o sofrimento.

Parece que, conforme evolui a tecnologia e a ciência, conforme nos afastamos das capacidades humanas inatas de contato com a terra, quanto mais moderna a sociedade se torna, mais dificuldade temos em aceitar as limitações que a vida nos impõe.

Conforme nos modernizamos, passamos a acreditar em uma idéia imbuída de fantasias criadas pela contemporaneidade, que é a idéia de poder e imortalidade. Existem coisas absolutamente maravilhosas na vida, independente do conforto que podemos conseguir. Mas parece que perdemos o contato com nossa vida selvagem, no sentido mais positivo que esta palavra pode ter.

Perdemos o contato com nossos melhores instintos, com o prazer de andar com os pés no chão, ou sem roupa dentro de casa. De abraçar um amigo ou amiga, sem pensar se é adequado ou não. Perdemos nossa espontaneidade, nossa naturalidade, e junto com tudo isso, a resistência e o contato com a inevitabilidade do sofrimento, com nossa capacidade latente de luta e sobrevivência.

Não sou, de forma alguma, contra a evolução natural da ciência e da tecnologia. Seria loucura de minha parte e total incoerência negar a evolução natural de nossa espécie.

Mas precisamos fazer de tudo para não nos permitir abrir mão de algo essencial e humano que nos pertence, pois quanto mais evoluímos tecnologicamente, mais longe de nossas raízes ficamos. À medida que melhoramos nossas condições de vida, perdemos a capacidade de enfrentar a dura realidade do sofrimento.

Parece-me que nossa têmpera se sensibiliza a ponto de enfraquecer. E, na ilusão de que o sofrimento não existe, camuflamos a nossa realidade com a realidade dos prazeres efêmeros. E quando somos solapados com algo terrível em nossas vidas, acreditamos que nosso direito à felicidade foi burlado ou traído por Deus ou algo maior do que nós.

Qual a saída que temos? Entender o sofrimento como algo inerente à vida, como algo pertencente a ela, e não como vítimas desoladas e traídas por Deus! Essa atitude é uma das mais eficientes maneiras de negarmos nosso direito à felicidade.

Culpamos alguém pelos nossos infortúnios, o pai, a mãe, o marido, o governo, Deus, os anjos, e assim vamos vivendo como crianças, fazemos ¿bico¿ para a vida, e a única coisa que conseguimos com essa atitude é o afastamento da possibilidade de desenvolvimento da consciência e da percepção, que são as únicas possibilidades que possuímos para a construção de nossa felicidade!

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