Vivemos um momento que, apesar de muito rico, é dolorosamente sentido através de muitos desencontros. O maior e mais difícil deles é o desencontro entre masculino e feminino.
Podemos começar tentando compreender que também essa é uma questão evolutiva, a integração do feminino para uma vida mais equilibrada. Todos nós, mulheres e homens habitantes deste planeta sentimos a dor do massacre que praticamos contra nossa mãe Terra, contra a Mãe natureza, nutriz e berço de nossos corpos e espíritos. Parece que todos nós, de uma forma ou de outra, negligenciamos a importância desse feminino. Se Deus é o pai, Nele reside todo poder.
A dor e a frustração devem necessariamente nos remeter à reflexão, pois como vivemos um momento de mudança profunda e tentamos desesperadamente desenvolver novas formas de nos relacionarmos com nossas vidas, o relacionamento e o entendimento entre masculino e feminino também deve mudar.
A balança pendeu para um só lado durante muitos séculos e hoje vivemos um colapso, resultado desse desequilíbrio. Não me refiro somente às mulheres, pois o que vemos são homens e mulheres que sofrem com o resultado dessa revolução que se mostra externamente, mas que na realidade acontece dentro de todos nós.
Muitos trabalhos têm sido feitos com mulheres para que possam compreender, e mais, reapropriarem-se do poder de um feminino massacrado e perdido. No entanto essa compreensão deve brotar de nossos corações. Somente dessa maneira poderemos retornar ao verdadeiro feminino que vive dentro de todos nós. Há muito tempo somos testemunhas da tentativa desse redespertar, que como uma borboleta em seu apertado casulo, busca sua expressão. Onde reside esse poder e afinal, por que tanto medo dele?
Parece que nos perdemos em meio à confusão e supremacia de um masculino destrutivo e ameaçador. Precisamos entender que, resgatar o poder do feminino não é se apropriar do poder destrutivo que conhecemos, do poder do masculino dentro de nós. Não é também obter a supremacia e nos apropriarmos de algo que não nos pertence. Masculino e feminino possuem cada um o seu próprio poder.
Enquanto acreditarmos que o poder feminino é idêntico ao masculino, continuaremos no desequilíbrio. Nesse momento nos perdemos, quando acreditamos que resgatar nosso poder era lidar com a vida da mesma maneira que vimos acontecer através dos tempos. Quando aceitamos e praticamos a mesma forma de poder, nos despimos do maior deles, o poder selvagem que brota muito mais da união de nossa intuição e conhecimento, que necessariamente se transforma em sabedoria, do que da razão e capacidade produtiva. Essa é mais uma forma destrutiva de nos relacionarmos com o poder.
Já sabemos que somos capazes de muitas coisas. Conquistamos espaços que ninguém mais ousa nos arrancar. Agora devemos dar mais um passo à frente, porque o que não podemos, é, nessa procura, perder o que temos de melhor, que é a nossa feminilidade.
Não falo de uma feminilidade fabricada pela moda ou pela mídia, mas de uma feminilidade que é iminente a todas mulheres e que se perdeu na busca de nossa independência. Uma feminilidade isenta de forma e conteúdo, que existe em nossas vísceras.
O feminismo foi um movimento necessário, mas hoje o que percebemos é que devemos dar mais um passo à frente. Conseguimos muito através desse movimento, mas se continuarmos somente no que conquistamos não conseguiremos a felicidade e o equilíbrio que pretendemos e mais do que isso, merecemos.
O conto de fadas antigo deve terminar. As heroínas modernas devem resgatar dentro de si um feminino primitivo, selvagem, irracional e independente. Mas não é isso que vemos. Ouso dizer que há ainda o pouco de masculino dentro de nós. Muitas de nós ainda respondem inconscientemente a esse poder invisível que muitas vezes nos manipula sutilmente e ainda é imposto por nós. Ele impregna o inconsciente coletivo e nossa luta deve trazê-lo à consciência e transformá-lo.
Há que se começar a pensar em uma nova forma de manifestar nosso feminino, um feminino que nos faça retornar às nossas vísceras, às nossas raízes ancestrais. Enquanto estivermos apenas na intelectualidade, não conseguiremos reaver nosso verdadeiro poder. É claro que são muitas as mulheres que estão manifestando esse poder, no entanto, grande parte ainda está presa em algum lugar que não consegue definir claramente qual é, e não consegue sair. Há uma urgência evidente no trabalho desse despertar, pois somente quando ele acontecer poderemos todos, homens e mulheres, encontrar o equilíbrio que buscamos diariamente.
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