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"Isso é o que na verdade os homens mais buscam na Terra: é somente a ferrugem que dá à moeda o seu valor". -Tales-
Existem algumas fases em nossas vidas que a cabeça parece girar e perdemos nossa capacidade de raciocinar, de entender. E que por mais acertada que seja a decisão que porventura tomamos, ou que tomaram por nós, o coração aperta com tamanha dor e sofrimento.
Mas, como todos nós sabemos, o sofrimento faz parte da vida. Sem ele, já teríamos cumprido nosso ciclo de nascimentos e mortes, e certamente não estaríamos encarnados. Sabemos cada passo que deve ser dado, cada pedaço de caminho a ser trilhado, mas a dor é algo que sempre nos parece renovada.
Por mais que já tenhamos sofrido com inúmeros acontecimentos em nossas vidas, a dor sempre nos parece nova, como se fora a primeira dor que sentimos. Esquecemos que um dia ela passa, como tudo, mas a sensação é de que ela nunca passará. Existe um tipo de sofrimento que é o mais doído de todos para todos nós, seres humanos, que é a dor da separação.
Seja essa separação por morte, por doença, porque o amor acabou, ou nunca existiu...a separação sempre nos causa uma imensa dor no peito, no corpo, na alma. Como é difícil nos separarmos de alguém que amamos, que queremos bem. E nos perguntamos sempre, sem descanso: por que?
Por que a vida nos arranca, muitas vezes sem piedade, em nossa maneira limitada de enxergar as coisas, injustamente, aqueles que mais amamos? Encontramos inúmeras respostas racionais, inúmeras teorias religiosas e filosóficas nos explicam o porquê, mas nenhuma dessas respostas satisfaz nossas emoções, e continuamos chorando. Passamos por um lugar, ouvimos uma música que nos lembra essa pessoa, e nos revoltamos, lastimamos nossa dor, choramos nossa desgraça.
Somente sabemos que amamos tanto, que nos demos tanto, que lutamos tanto e nos conscientizamos inevitavelmente da transitoriedade da vida, concluímos que nem tudo termina como planejamos, como sonhamos, mesmo quando fazemos tudo da melhor maneira que podemos, da forma mais absolutamente ética e límpida que conhecemos, com todo amor e os mais nobres sentimentos que somos capazes, mesmo assim, perdemos.
Até que percebemos que não temos outra saída a não ser engolir a frustração, a enorme frustração de ter fracassado, sim, por que o sentimento, num primeiro instante é de fracasso. Percebemos que não temos saída, somos impotentes diante de uma vontade que está além da nossa consciência.
Se essa vontade se chama Deus, providência divina, destino ou inconsciente, nunca saberemos. Mas também, diante dos fatos inexoráveis, o nome que essa força ou vontade tem, pouco importa. Nesse momento somos impotentes diante dessa Vontade e não temos outra saída a não ser a entrega.
E rezamos. Rezamos com toda força de nossa alma e pedimos uma resposta, um sinal, por menor que ele seja, de que não sucumbiremos, não morreremos diante de tanto sofrimento, tanta dor. A incerteza do futuro nos arrebata a fé, a felicidade, nossa alegria. A dúvida passa a ser a nossa maior companheira. Nada sabemos. Esse é o estigma, esse é o chamado.
Nossa fé inevitavelmente é reavaliada nesse momento. Nosso ego é mais uma vez estupendamente arrebatado e somos nocauteados pelo nosso inconsciente, ou quem sabe, pelo próprio Deus, ou destino.
Não temos outra saída a não ser nos entregarmos a esse destino, que num primeiro instante nos parece triste e incompreensível. Até que recuperamos um fio de raciocínio, e somos capazes de compreender alguns porquês.
Conseguimos, através de uma certa reflexão, perceber que esse destino já estava sendo traçado há muito tempo, mas não pudemos ou não nos permitimos enxergá-lo. Mas mesmo assim resistimos, não aceitamos, nosso ego-personalidade quer que as coisas continuem como eram, não queremos a mudança. Mas o Universo, mais uma vez nos grita: NÃO! E aceitamos, resignadamente aceitamos esse destino, já que não temos outra opção. Abrimos mão de nossos sonhos, de nossa vontade.
Esse momento me faz lembrar uma passagem no processo alquímico chamado ¿calcinatio¿. Trata-se do processo de queima, e portanto tem o fogo como simbolismo. É como se a frustração de nosso desejo fosse queimada até que as emoções se eliminem por si mesmas, nosso ego personalidade deve ser queimado, eliminado para que possamos atingir cada vez mais nossa essência como indivíduos.
Os animais ligados a esse estágio da opus alquímica são o lobo e o leão, que são animais ligados a paixões, ao orgulho, à arrogância, ao desejo, sendo comuns os sonhos com esses animais nessas fases de crescimento.
A representação dessa passagem é a imagem de um lobo dentro de um tubo de vidro, com as patas cortadas e esse tubo está em cima do fogo. Detalhe: o vidro está lacrado. Percebe a profundidade dessa imagem e a importância desse momento de sofrimento?
O maior problema é e sempre será nosso ego inferior, nossa personalidade que insiste em manter as coisas como estão, aliás, como queremos que estejam. Certamente é muito mais fácil falar sobre a dor do que sofrer essa dor.
Mas alenta, e muito, se quando estamos em meio ao sofrimento, encontrarmos um sentido superior a toda barbárie que a vida nos impõe, encontrarmos um símbolo que eqüivalha a esse período, pois através do símbolo, podemos vislumbrar um certo fio de esperança, e podemos, quem sabe, conseguir dormir em paz.
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