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"...e rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque permanece convosco. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. Ainda um pouco e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Nesse dia compreendereis que estou em meu Pai e vós em mim, e eu em vós".
Jó 14, 16-20
Como tenho insistido em praticamente todas as minhas matérias, vivemos um momento de profunda transformação energética em diferentes planos de nossa existência. Certamente essas mudanças estão nos atingindo direta ou indiretamente, provocando, ou nos obrigando a atitudes que até então pudemos deixar de lado.
Todos, sem exceção, estamos sendo transformados de uma maneira ou de outra, através da dor e do sofrimento, pois este é um planeta que, infelizmente, a transformação através do amor ainda está em estado embrionário.
Recebo diariamente inúmeros e-mails de pessoas que sofrem a dor da perda, seja através da perda da estabilidade financeira, do fim de um romance ou casamento, de uma doença grave, depressão, ou algum transtorno ansioso que provoque a perda da liberdade através do medo.
Toda perda vem acompanhada de intensas e prolongadas crises que nos remetem a sentimentos antigos e já conhecidos de dor. Nosso corpo todo dói, literalmente sentimos dor no peito, pois algo nos foi de fato arrancado.
No entanto, enquanto ficarmos encalhados na dor, perderemos a visão do todo, que somos nós mesmos, perderemos o sentido que poderá ser transformado no remédio, perderemos o contato com nosso curador interno, nosso eu superior. De que forma podemos aprender a compreender os momentos de grande dificuldade e dor? Como fazemos isso?
Existem inúmeras maneiras de darmos sentido à história de nossa luta individual e coletiva. Um deles é relacionarmos nosso caminho à vida do Cristo de forma arquetípica, pois Sua vida, quando observada através de nossos processos psicológicos, representa nossa própria vida e luta, ou seja, representa nosso processo de individuação, o encontro com nossa alma.
Nosso inconsciente está impregnado das imagens da vida do Cristo, e não precisamos imitar, ou fazer qualquer esforço consciente no sentido de assimilá-la e compreendê-la. Ela está impressa em nossas células no nível atômico.
Nos tempos atuais, parece que estamos todos sendo obrigados a submeter nossos egos à aceitação, pela alma, do encontro com o sagrado. Essa atitude pode ser comparada à atitude de Maria quando obedece com amor a uma voz divina e aceita ser a mãe de Jesus Cristo.
Nasce o menino Jesus, nosso self, nossa possibilidade de sermos nós mesmos. Até que, no rio Jordão, Jesus é batizado. Em termos psicológicos, podemos entender o batismo de Jesus em um primeiro momento como confissão e arrependimento de nossos "pecados" e em seguida, uma psique autônoma se faz renascida, ou seja, percebemos que devemos nos apropriar daquilo que somos. Esse batismo normalmente acontece pelas mãos de uma outra pessoa, um terapeuta, um professor, um amigo, um irmão.
Todo batismo vem acompanhado do simbolismo da água, que sugere a purificação e a transformação de nosso mundo interior, da inconsciência à consciência. Quando somos batizados, devemos assumir aquilo que nos cabe, nosso destino, nossa individualidade, sermos aquilo que devemos ser, apropriar-nos de nós mesmos.
Nessa altura estamos prontos para sermos levados ao deserto e sermos tentados pelo demônio. Esse demônio pode ter mil faces, e sempre tem. Somos tentados por inúmeras imagens, desejos, somos tentados em fazer do encontro com o sagrado, algo pessoal, em usar o poder pessoal em benefício próprio. Nesse momento, podemos cair, mas também podemos triunfar!
E se triunfamos, podemos nos sentar à mesa e saborear a refeição sagrada, a Santa Ceia. Podemos nos apropriar do corpo de Cristo, do alimento da imortalidade, da consciência de nós mesmos, que permite que nossa vida seja vista e vivida sob um novo aspecto, envolvida pelo sagrado.
Porém, o sentido maior e mais profundo do simbolismo cristão é o caminho de sofrimento e dor. Descobrimos então, que nosso destino, enquanto humanos, é o de ser crucificado. A cruz cristã representa nossa luta na matéria, e enquanto seres materiais que somos, somos crucificados para podermos renascer.
Quando nos sentimos desesperados, quando já não sabemos mais o que nos sustenta, ou se temos a impressão de que já não nos sustentamos mais, devemos ficar sozinhos. Somente a experiência de estar só pode nos dar sustentação e possibilidade de crescimento. Há um ditado que diz que: ...onde há perigo, há também a força de resgate.
Portanto, não tenha medo da crucificação, ela faz parte de nosso processo de auto-encontro, nosso processo de individuação. Especialmente nesse momento, não nos encontramos sós, uma força além de nós mesmos se torna mais presente. E morremos na cruz da vida, das imagens e valores que já não fazem mais sentido algum.
Adentramos profundamente em nosso inconsciente e sofremos a dor do luto por aquilo que deixamos de ser, e dos medos do tornar-se, do vir a ser. Mas como a própria imagem do cristianismo nos mostra, ressuscitamos. Medo? Do que? Nada acontece por acaso, todos dizemos, nada acontece na hora errada, em momento incerto.
Vivemos aquilo que os gregos chamam de Kairos ¿ o momento certo para as mudanças. E depois de ressuscitarmos, ascendemos como o próprio Cristo, e recebemos o espírito sagrado. Entramos em um estado de graça e o Pentecostes anuncia a chegada de um novo ciclo.
Essa é a história de todos nós, ricos, pobres, letrados, sábios, ignorantes. É a história de nossa humanidade, simbolizada pela vida daquele que, revestido do Amor e da Compaixão Maior, está registrada em nosso inconsciente para podermos nos fortalecer a cada tropeço ou desesperança de que, no dia seguinte, o sol volta a brilhar.
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