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Provações
Por quê ter medo do desconhecido?
 
Eunice Ferrari
 
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"O homem jamais pode aperfeiçoar-se, porque sua perfeição é sempre o conhecido". Krishnamurti

Como disse em matéria anterior, todos nós estamos aprisionados pela nossa mente. Porém, gostaria de discorrer um pouco mais profundamente sobre essa minha afirmação. Todos, sem exceção, nos sentimos infelizes e ressentidos com questões que, na maioria das vezes não conhecemos a origem.

Você já parou para pensar que toda sensação de infelicidade provém de nosso condicionamento a conceitos há muito familiares e conhecidos? Há quanto tempo você acorda e faz sempre as mesmas coisas? A mesma forma de fazer sua higiene, de tomar o seu café, o mesmo desjejum de sempre. A mesma maneira de tratar seu marido ou esposa, seus filhos, seus vizinhos, o mesmo percurso para o trabalho, a mesma forma condicionada de ser e estar no mundo e na vida.

Se você se sente feliz desse jeito, perfeito, você encontrou seu caminho. Porém, se acha que em sua vida está faltando algo, pare um pouco e reflita, pois, muitas vezes uma pequena mudança na rotina diária pode promover outras mudanças, e com o passar do tempo, pode até gerar grandes mudanças, pois sua criatividade natural, começa a encontrar espaços para florescer.

Você sabe o que é sincronicidade? A física explica a sincronicidade como a possibilidade de dois fenômenos distantes estarem ligados entre si. Se refletirmos sobre essa lei, podemos perceber que existe a certeza de uma interconexão integrada do Universo, ou seja, existe uma relação, uma correspondência que independe de causas entre os acontecimentos.

Podemos entender, dentro dos princípios humanos não racionais, que a sincronicidade é um indício do reconhecimento da intuição. No entanto, a única maneira de entrarmos em contato com esse lado que existe em todos nós, ou seja, a intuição, é nos libertartando de nossa mente, como disse anteriormente, nosso algoz, nosso carcereiro. Sem trabalharmos no processo de identificação e libertação de nossa mente, não conseguiremos nunca vivenciar um estado de maior felicidade. Mas, como libertar-se da mente?

A única maneira de nos libertarmos da sensação de prisão que vivemos, é trabalharmos no sentido da libertação de nosso eu. Quando nos libertamos do eu, somos naturalmente livres.

Se pararmos para avaliar nosso dia a dia, poderemos perceber uma série de condicionamentos, que com algum trabalho poderemos lentamente ir nos libertando. Como a libertação é um processo, e como sempre digo, tudo na vida é um processo, nada do que é efetivo e duradouro pode ser diferente disso, não é algo que conseguiremos sem um certo trabalho de coragem, determinação, paciência e tolerância com os outros, a sociedade em geral e, principalmente com nós mesmos. A tolerância com nossos êrros e a felicidade por cada pequeno passo dado à frente é algo de fundamental em qualquer processo de mudança.

Mas como posso dar início a esse processo de libertação? Primeiramente, devemos fazer uma reflexão profunda sobre a idéia da mente, e em que os processos mentais estão baseados. Nossa mente está totalmente poluída pela idéia do eu. Insisto em dizer que nossa civilização é narcisista e arrogante, e enquanto nosso prazer estiver baseado nesses dois sentimentos, não conseguiremos de forma nenhuma ser felizes.

Vivemos diariamente "pré-ocupados", ou seja, ocupamos nossas mentes previamente com questões que simplesmente não podemos solucionar imediatamente. Pense bem, se você tem um problema que pode ser resolvido, mas que levará um certo tempo para tanto, não há necessidade de preocupação. Por outro lado, se você tem um problema que não tem saída, ou seja, não tem solução, não faz sentido a preocupação, a não ser se entregar e pedir ajuda ao Universo para superá-lo, já que somos pequenos demais para solucioná-lo.

Nossa mente é um centro de emoções como os afetos, os prazeres, os ódios, a inveja, a alegria, o sofrimento, e toda sorte de sentimentos que podemos ter como humanos que somos. Todo o tempo buscamos nos afirmar, estamos o tempo todo em conflito, em luta e dor, entre o que somos e o que deveríamos ser. Precisamos parar e perceber esse movimento de nossa mente, que é um movimento em direção ao aprisionamento. Sempre que temos a definição pré concebida, estamos nos aprisionando e impedindo o livre caminho de nossas vidas.

O medo é nosso maior inimigo nesse processo de libertação, pois quando sentimos medo, nossa mente constrói inúmeras teorias baseadas naquilo que conhecemos, ou seja, no que está registrado por nossa memória. Dessa forma, através dessas teorias construídas pelo medo, nossa mente se realimenta e nos aprisionamos mais e mais naquilo que conhecemos e estamos condicionados.

Quando não sentimos medo, ou seja, quando construímos uma firme e inabalável fé na vida, e volto a insistir que essa fé deve ser construída a partir da realidade do sofrimento e da dor, podemos dar o segundo passo em direção à nossa libertação. Devemos nos libertar de condicionamentos passados, de teorias pré concebidas sobre o mundo, as pessoas e sobre nós mesmos, e termos coragem de nos lançar ao desconhecido, pois como diz nosso grande Mestre Krishnamurti, ..." homem jamais pode aperfeiçoar-se, porque sua perfeição é sempre o conhecido" Mas o que é esse desconhecido que nos amedronta tanto?

Ele pode ter várias formas: um novo amor, um novo e mais realizador trabalho, uma nova forma de se relacionar com o ser amado, uma mudança na forma de tratar as pessoas ao meu redor, uma nova e mais gratificante fé, um novo modo de olhar a vida e o mundo, uma nova forma de amar e viver a vida, sem as vozes do passado, sem compromissos sem sentido, buscar dentro de mim um novo modo de expressão, pintar, desenhar, meditar, dançar mais do que de costume, sentir mais perfumes, mais sabores, mais amores, mais vida! Tente um novo projeto de vida, se preciso for, tente lentamente, apenas não deixe de tentar.

Pensamento da semana
Ser livre implica solidão completa, o que significa a libertação do medo...para sermos capazes de expressar a verdade que vemos, independentemente das ameaças que nos rodeiam, requer-se uma revolução em nosso pensar...
Krishnamurti

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