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Provações
A idade da ansiedade
 
Eunice Ferrari
 
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Existem alguns autores que definem a era em que vivemos como a Idade da Ansiedade. Por esse e por outros tantos motivos, decidi dar continuidade a esse tema, pois percebo que inúmeras pessoas sofrem hoje desse mal.

Vivemos, como sempre procuro salientar, em um momento extremamente difícil para toda humanidade. A dinâmica agitada de nossa sociedade, as cobranças e exigências diárias que somos todos obrigados a cumprir, a competitividade em nome da sobrevivência, o consumismo desenfreado que caracteriza uma sociedade narcisista, tudo isso contribui e muito para o desenvolvimento da ansiedade em nosso modus vivendi.

O simples fato de participarmos ativamente da contemporaneidade, que é um fator inevitável, já preenche todos os requisitos para o desenvolvimento da ansiedade. Um certo grau de ansiedade e estresse é normal e até mesmo necessário para a construção de nossas vidas e defesas, porém, estima-se hoje que 30% da população mundial sofre de ansiedade aguda, ansiedade esta que leva a sérios transtornos, que são agentes desencadeadores da falta de paz e saúde.

Como disse em artigo anterior, toda ansiedade traz em si o fantasma do medo. Gostaria de pedir para você refletir sobre nossa tão evoluída e arrogante sociedade, se os sentimentos de medo e ansiedade do homem das cavernas era muito diferente dos medos que hoje trazemos de invasão e violência, até mesmo dentro de nossas casas.

Esse tipo de reflexão me leva a pensar que evoluímos apenas em certos aspectos, e que a animalidade, alguns sentimentos que são desencadeados quando nos vemos em perigo, quando somos ameaçados pela perda e sofrimento, faça parte da natureza humana, de nosso lado biológico, ainda pouco evoluído.

Porém, percebo que a ansiedade, diferente do animal, tem um outro componente, além do medo e do estresse, que são desencadeados por nossas vaidades, nosso orgulho, nossas ambições. Na verdade, por exigências de nosso eu menor, por fantasias de nosso ego que são constantemente alimentadas pela mídia, próprias de uma sociedade de consumo, morremos lentamente, sem perceber, sem ao menos refletir, vivendo simplesmente nosso dia a dia, sem nenhum questionamento, especialmente os do tipo: quem sou eu, de onde vim e para onde vou?

Embora a ansiedade muitas vezes favoreça nossa performance, ajoelhamo-nos diariamente, nos matamos lentamente, pois quando não colocamos um limite definido ao objetivo que de fato podemos, e não àquele que queremos chegar, a ansiedade pode atingir graus elevadíssimos, e, ao invés do favorecimento, ela promove a destruição, primeiramente de nossa tranqüilidade e sono, e em seguida se inicia um verdadeiro inferno interior.

Antigamente o homem das cavernas enfrentava perigos concretos e próprios da luta pela sobrevivência. Precisava se defender de animais ferozes, de lutas com outras tribos, contra o clima, que em muitos casos era fator de vida ou morte, e lutavam pelo alimento através da caça.

Se pararmos para refletir, apenas substituímos os perigos. Enfrentamos a competitividade social, que substitui as guerras tribais, a insegurança social, que substitui as invasões por predadores, animais ferozes e inimigos tribais, a sobrevivência econômica, que substitui o enfrentamento com a necessidade de caça e o fantasma da fome.

Os medos do futuro e da morte continuam presentes dentro de nós, bem como nosso equipamento biológico de enfrentamento diante dos perigos quase abstratos, mas muito reais. A ameaça constante do desemprego, a ineficiência do Estado em nos proporcionar alguma segurança, necessária a todo e qualquer ser humano honesto e trabalhador, a falta de perspectiva para o futuro de nossos filhos e netos, sem falar na realidade da violência urbana que nos aterroriza e prejudica nossa saúde diariamente.

Diante de tudo o que foi dito, podemos chegar à conclusão que a ansiedade é um mal inevitável, que frutifica aceleradamente em nossas vidas diárias, que à princípio aparece como um sentimento de apreensão, uma sensação de que algo ruim vai acontecer, e dessa maneira, colocamos nosso sistema nervoso em estado de alerta contínuo, e, na maioria das vezes, acabamos por nos intoxicar com algum comprimido milagroso de última geração, na esperança de diminuir esse sentimento.

No entanto, somos nós, co-criadores dessa mesma loucura social, e cabe somente a nós, a luta pela criação e desenvolvimento de uma sociedade mais justa e tranqüila, através da determinação pela auto transformação individual, em seguida familiar, ensinando novos valores para nosso filhos e netos.

Dessa forma, estaremos preparando o terreno e lançando alguma semente que, com sorte e paciência frutificarão e alimentarão àqueles que de fato sentem fome de paz, de amor, de fraternidade, compaixão e felicidade.

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